As aventuras do Pastor Amâncio Soares

Parte 1
Amâncio Soares era um sujeito desnorteado, cabeça dura, desses que não sabem o que querem. Um dia, chateado da vida, pôs-se a caminhar por um beco. Era de noite. A lua cheia brilhava no céu. As estrelinhas faiscavam.
Sentindo o cheirinho agreste dos arbustos do mato, Amâncio foi andando. Lá na frente, na casinhola do Seu Tavinho, um grupo de protestantes cantava: “Manso e suave Jesus está chamando”. E o pobre coitado ouviu: Amâncio Soares, Jesus está chamando...”
Amâncio apressou os passos. Chegou desconfiado. Umas mocinhas o olharam de rabo de olho. Mas o hino o convidava e ele entrou. Ouviu a pregação, o apelo e aceitou o Evangelho.
Mais tarde, Amâncio Soares resolveu ser o pastor daquela congregação. Descobriu que havia um bom grupo de irmãos espalhados pela redondeza que formavam uma igreja na zona rural. Como não tinham pastor e o irmão Tavinho falava fraco, ele se dispôs. Começou a estudar em casa, pediu alguns livros emprestados. O pastor da sede gostou da ideia e o elegeu obreiro.
Dentre aquelas mocinhas, salientava a Balbina – que cantava mais alto do que todo o mundo, sabia ler e fazia orações bonitas. Balbina era apelidada de Bina. Moça de boa família, vestia sempre uma saia de flores amarelas e blusa azul claro. Quando Bina passava, rescendia uma fragrância de rosa. Era um perfume que ela ganhara de sua patroa na cidade.
Não demorou muito, Amâncio revelou uma atenção toda especial para com Balbina, ao ponto de os próprios congregados desconfiarem. Do púlpito, ele anunciava: “Agora vamo ouvi um lindríssimo hino cantado pela cara Bina”. Ou então: “Meu carozirmão, é com bastante sastifação que vamo escutá um bunito hino pela cara Bina!”.
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Parte 2
O pastor Amâncio Soares tinha em sua congregação uma porção de mulheres muito esforçadas. Entre elas se destacavam: Nilha e Tilha – irmãs gêmeas, Nivela, Dioca, Gueira, Teiga, Daxuva, Xete e Conceição, que tinha o apelido de São.
Acontece que o pastor costumava chamar cada irmão tão rápido que acabada omitindo o prefixo ‘ir’ e dizia sempre ‘mã’ Fulana. Por exemplo, a irmã Geralda, ele dizia mã Gerarda, e assim por diante.
Era um dia de festa, aliás, o aniversário da Bina, que agora já era sua noiva, de aliança de ouro no dedo. Era a única joia que as mulheres podiam usar. Então, para dar uma surpresa na noiva, Amâncio convidou as senhoras para fazerem um programa todo especial. Chegou a hora do culto. Ele limpou o gogó e anunciou no púlpito:
“Meu carozirmão, agora vamo ouvi um hino cantado pela mã Dioca, acompanhado pela mã Nivela e que vai alegrá muito a mã São (Irmã Conceição era a mãe de Balbina). Peço a mã Teiga para ficar fria, senão vai deixá as lágrima escorrê pela mã Nivela e sujá a mã Tilha. Daí a mã Gueira vai ter muito serviço de lavagem. Se a mã Daxuva concordá, peço a mã Xete para escrevê esse acontecimento de hoje no livro das ata”.
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Parte 3
Estava chegando o dia do casório do pastor e nada da casa pastoral ficar pronta. Daí, Amâncio convocou os oficiais da igreja para um mutirão. Eram os seguintes: Desto, Lengo, Lusco, Cotó e Nóculo, e os irmãos, Mento e Vimento.
Bem, o pastor Amâncio Soares chamava cada irmão tão rápido que, ao invés de dizer irmão Onofre, ele dizia Mo Nofre. Irmão Enoque era Mo Noque, e assim por diante.
O mutirão foi marcado para sábado. Mas, no dia seguinte, domingo, ele subiu ao seu singelo púlpito tristonho e deu a notícia:
“Meuzirmão, infelizmente eu e a minha cara Bina não podemo mais casá na data marcada, devido a casa pastoral não ficá pronta, pelo seguinte: o mo Tivo disse que o mo Desto não gosta de aparecê e que o mo Nóculo tem a visão muito curta e que o mo Mento não é de mo Vimento. Daí o mo Cotó deu no pé e o mo Lusco se escondeu no caramujo de sua preguiça... Quem sabe a mã Daxuva tem outra solução?
Viu só como as mulheres são mais esforçadas? Até na igreja do Pastor Amâncio Soares era assim. Aliás, ela não podia constituir exceção.
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Por Izabel de Alcântara Guimarães
